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Mostrando postagens de dezembro, 2017
Aquela fumaça que normalmente era um conforto pra ela às vezes incomodava. Betina que evitou fumar por longos anos, hoje só queria relaxar. Alguma coisa a fazia pensar em cada detalhe dos últimos dias, dentro dela parecia haver algo estranho, não errado, só estranho. Uma mudança mínima de comportamento teve resultados espantosos. Ela soube dizer não. Logo ela que sempre cuidou de uma imagem afetuosa e atenta, nunca imaginou que afeto e atenção incluíam limites, aliás, era um assunto constante, mas colocar em prática, quando se é uma pessoa permissiva, envolve uma valentia sem precedentes. Betina sentiu orgulho. Algumas merdas aconteceram, é verdade, mas como dizia sua avó, entre mortos e feridos todos se salvaram.
O suco demorou um bocado pra sair mas, no balcão da padaria, alguém chamou avisando que estava pronto. Suco de laranja e acerola com açúcar, não muito, só o suficiente. Betina pegou o copo e seguiu em direção à mureta. Passou pela cabine de polícia, pela fileira de carros estacionados e atravessou a rua. Que delícia de fim de tarde. Faltavam quarenta minutos para o início da aula, talvez um pouco mais, por conta dos atrasos. Ventava fino e algumas pessoas circulavam por ali, ela queria ver tudo mas não queria ser vista. Sentou-se com as pernas viradas para o lado da mureta onde não há calçada, apenas as pedras, um pouco de lixo e a água da baía, que de tão translúcida nem parecia estar poluída. Betina se sentia poluída. Vivia nela uma dor que não tinha nome e parecia se instalar em diferentes lugares do seu corpo ao fim de cada ciclo para que não fosse rastreada, uma dor que fazia contrair seu tronco e transbordar em gotas. Betina queria descobrir alguma força que fosse maior que a do...